26/04/12

Quando a memória sente






Vêm-me os teus contornos à memória.

Vêm-me no acolhedor cheiro de grãos de café queimados. Queimando na ponta da língua das minhas insónias quando teus contornos me desassossegam a palpitação jugular e me ardem as têmporas. Remonto a essas noites em que como café sorvido te despertava no aconchego de conchas e búzios, ondulando em murmúrios de algas verdes e profundezas da alma.

O barco faz a travessia rotineira, o céu cinzento espelha-se nas águas agitadas no encontro de uma corrente com a chuva em sol encoberto e ausente. Duas árvores convidam a minha janela para uma dança de angustiada raiva e morder de lábios enxaguados.
Enquanto no quarto fervilhante assolam de novo as dores de cabeça de um free-jazz em páginas amontoadas, gritos de negação, chamamentos de silêncio-solidão e absurdos lamentos. Existências ressalvadas e encarnadas de crus desenhos em quadros negros pintando a giz de unhas partidas Camus e Sartre e mitos de Sísifo das toneladas de pedra quotidianas na aleatoriedade sobreposta nos “Passos em volta” de Herberto Helder.

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