30/07/12

a condição humana

Em dias abafados em que nos inclinamos à inclinação horizontal do culto da preguiça, reflectir sobre a condição humana é quase como trovoada que a falta de aragem fresca faz prever. 
Reflectir sobre a condição humana pode significar o esforço contemplativo da leitura de estrelas numa noite de verão. Se formos capazes de nos perdermos nessa contemplação de tal forma que todo o globo ocular se funda com as linhas entre-cruzadas de constelações imaginadas (pois não somos na nossa maioria especialistas na arte e ciência astronómica), ao retornamos à focalização terrena dos objectos circundantes e próximos, sentiremos que a vida humana vale pela vida humana. Tal afirmação poderá, a uma primeira leitura, parecer óbvia. Não o é. Digo-o porque a complexidade disfuncional que caracteriza a evolução das sociedades é precisamente a contradição da tal afirmação "óbvia" de que a vida humana vale pela vida humana.

Sobre a condição humana dos dias actuais, nas palavras e reflexões eruditas dos líderes mundiais, a ordem e paz aparecem quase sem excepção como desígnio último a atingir. O problema é que o caminho seguido, o caminho traçado (e ainda pior) o caminho ambicionado se concentra na ideia de que importa a ordem e a paz fazendo a guerra para manter as primeiras dentro de certos limites territoriais através do medo instaurado pela segunda. 

Já o fiz, mas lembro mais uma vez Tocqueville quando a respeito destes assuntos escreveu que é em nome da paz e da ordem que todos os povos têm sido levados à tirania. 
As palavras paz e ordem, (ou melhor dizendo, a palavra paz simplesmente, pois sem essa a ordem será sempre ilusória) só fazem sentido como tidas e sentidas na condição humana enquanto não existirem algumas centenas, milhares, milhões (sempre coisa pouca) de Homens integrantes dessa condição que vivam como fantasmas esqueléticos, esquecidos em campos de "ajuda Humanitária" (que conveniente eufemismo).  
Só quando a dignidade de viver for reposta e não houver um exército de despojados de identidade pela identidade vazia de estar condenando a ser moribundo sem nunca ter podido ler as estrelas, é que a reflexão sobre a condição humana poderá ser feita "descansados da vida" imaginando constelações. Até lá é impossível ficar indiferente.