05/10/11

saciar

Na estrada de um corpo só
sufocam de desejo virgens encarnando celestiais gritos,
ecoando nas paredes o prazer das suas sedes
que não  mitigadas ecoaram em vão
pelos gotas que escorrem nas embaciadas janelas de um
quarto húmido pelo orvalho da fornicação.

Há a alucinação,
o trecho de encarnado vivo na pele
que unhas de uma mão rasgaram
entreabrindo a porta de uma penetração
no aperto que ao desapertar
e que ao copular, outra mão apertou o rosto
sentido no seu o outro eu do bafo trépido
pela  pulsação de amar.

E na segurança ingénua por debaixo de lençóis fétidos
de um expoente, solo a dois, crescente, magnifica implosão, no quase choro de dor da solidão.
Ó ruídos de nenhures quanto tempo foi passado no internamento da mente sob a escuta atenta do coração.
O sonho, o desespero da realidade que o acordar bombardeou, a implacável dúvida que o amanhecer iluminou: afinal quem será que sou?

Chovem passageiros de uma tresloucada vida. Chove a tinta dos arranha-céus desbotando. Chove o cinzento manchando a estrada negra. Chove a estrada negra atropelada pelo frenesim. Chove o rosto húmido pela chuva. Chove cada pedinte ao eco solitário da solitária esmola. Chovem as toneladas de pedra que o Homem encarcera na tempestade do seu sofrimento.

E a chuva é o choro em que cada um, ébrio, cabeceando nas suas portas inspira: eu aguento…

03/10/11

relatividades-meias-verdades

as celestiais luzes não estão aí para iluminar, antes para se perceber que esquecer é bem mais do que (só) não lembrar.

10/08/11

o vórtice das musas inalcançaveis





uma pedra enrugada, contando áridas eternidades,
mitos, tremores, poucas-nenhumas-duráveis verdades.


chuvas que esvaindo se esvaem.
ventos que assobiam, folhas que caem.

sombras que se escondem para se não ver.
bocas que, mentindo, se calam para não dizer.



veja-se para que se diga: a espera a quem a consiga.



Cantam equilibrados no vértice da espera,
Aqueles que seu  vórtice não encarcera.
Tentados à música das musas sereias,
Aliciante emoção agitando loucura nas veias.
Risos e tonturas, gritos, ritos e amarguras,
Incendiando a alma o prazer das curas.
No topo do absurdo o desejo surdo
Á razão que sob a tentação é não mais que clarão mudo.

06/08/11

poema a Safo


                          Safo, por Charles-August Mengin (1877)                                                                                 
                                                                          

O olhar vítreo,
a transição entre dois pólos de limites insondáveis:
O desejo e o abismo,
e a inevitabilidade de encontrar em cada um deles o outro.



29/07/11

as coisas da ânsia ou a ânsia das coisas

há uma sede de ânsia na qual uma esperança sorveu. 
há um querer ingénuo como sorriso-infância que ele não escondeu.

há a vontade das coisas; muitas,poucas, fortuitas, loucas.
há uma voz que por dentro implode e a outra quando explode:
é tão-só um desvanecer em vozes roucas.

há a " é a última vez!" - grito vão de repentina tempestade.
há a mão trémula, o arrependimento do que fez.
há ânsia que por segundos morreu que acorre de novo ao corpo seu:
quando o corpo esperado não respondeu é ainda maior a ânsia que o invade.

26/07/11

O igual fumo das cidades

A cidade está cheia…de idiotas!
Foi este, apenas este e nenhum outro, o seu pensamento.

A verdade estava diante dos seus olhos. A cidade era a crua e insipida verdade de uma turba negra, disforme, impaciente, incapaz de olhar o céu ou mesmo descer o olhar à rua onde caminhava. 
Idiotas salpicando lama, quando um passo mais apressado pisava forte, desapercebido o caminhante, numa poça e o  único som que daí surgia, nem mesmo esse capaz de lhes voltar o olhar ao chão.

O mundo era aquela turba. Naquela fria noite tudo em redor, sob as pálidas luzes, lhe aparecia uma cortina de fumo espessa, contínua, composta por todo um paralelo movimento. Paralelo à vida, à sua. 
Sentia-se miserável ao atravessá-la. Não porque lhe fazia parte mas porque caminhava por entre ela. 

Seria o único caminhante fumando por desagrado a cortina espessa dos idiotas?
Seria o único?…

20/07/11

a vontade das palavras

Acordo com a vontade das palavras,
É tal a exaltação como o bloqueio mental que se segue,
Pois és fantasma, vento fortuito da inspiração.

A tua imagem possui dois gumes:
Ora doce, quando as palavras parecem desenhar as tuas formas; palavras contorcendo-se em sentidos, traçando momentos vividos em sonhos do imaginário consciente.
O toque da tua boca onde florescem os beijos das primaveras que procuro em cada luz matinal.
Ora amarga, quando os poemas se encerram nos acessos de uma ânsia de inacessível libertação.
E o corpo amordaçado sob pensamentos que desesperam fabricados pela mente inquieta.

O que dá à poesia uma erecção?
    O ora doce ora amargo.
As ilusões do: “o que poderia ter sido se assim não fosse”.
A procura de te ter mais perto em tudo o que vago quando perdido indago na dúvida do incerto.

No ora doce ora amargo jaz a febril esperança, o querer desenfreado, a ingenuidade de criança, o prazer do apaixonado.
Perante tal paisagem contemplada, a beleza simples do belo, a simples beleza da simplicidade,
O poeta acredita que não é acreditar em vão que lhe espera o banquete, o uivo do lobo,
A efémera rosa, o vinho doce da lua cheia, a transcendência de um pôr-do-sol, a inocência de um sorriso infantil, a potência de um orgasmo febril.


Todos os poemas têm lobos.
O meus uivam pela noite calada sob redemoinhos interiores,
As palavras emudecidas em tremores,
Palavras guardadas, pedidas, acabadas, esquecidas,
Rimas que não escrevo e guardo em mim enlouquecidas, quando o desvario do poeta te procura nas entrelinhas do quotidiano e percebe….
Por fim…que quando escreve possuis as suas palavras e delas não mais é soberano.