Vêm-me os teus contornos à memória.
Vêm-me no acolhedor cheiro de grãos de café queimados. Queimando na ponta da língua das minhas insónias quando teus contornos me desassossegam
a palpitação jugular e me ardem as têmporas. Remonto a essas noites em que como
café sorvido te despertava no aconchego de conchas e búzios, ondulando em murmúrios
de algas verdes e profundezas da alma.
O barco faz a travessia rotineira, o céu cinzento espelha-se
nas águas agitadas no encontro de uma corrente com a chuva em sol encoberto e
ausente. Duas árvores convidam a minha janela para uma dança de angustiada
raiva e morder de lábios enxaguados.
Enquanto no quarto fervilhante assolam de novo as dores de
cabeça de um free-jazz em páginas amontoadas, gritos de negação, chamamentos
de silêncio-solidão e absurdos lamentos. Existências ressalvadas e encarnadas
de crus desenhos em quadros negros pintando a giz de unhas partidas Camus e
Sartre e mitos de Sísifo das toneladas de pedra quotidianas na aleatoriedade
sobreposta nos “Passos em volta” de Herberto Helder.