26/04/12

Quando a memória sente






Vêm-me os teus contornos à memória.

Vêm-me no acolhedor cheiro de grãos de café queimados. Queimando na ponta da língua das minhas insónias quando teus contornos me desassossegam a palpitação jugular e me ardem as têmporas. Remonto a essas noites em que como café sorvido te despertava no aconchego de conchas e búzios, ondulando em murmúrios de algas verdes e profundezas da alma.

O barco faz a travessia rotineira, o céu cinzento espelha-se nas águas agitadas no encontro de uma corrente com a chuva em sol encoberto e ausente. Duas árvores convidam a minha janela para uma dança de angustiada raiva e morder de lábios enxaguados.
Enquanto no quarto fervilhante assolam de novo as dores de cabeça de um free-jazz em páginas amontoadas, gritos de negação, chamamentos de silêncio-solidão e absurdos lamentos. Existências ressalvadas e encarnadas de crus desenhos em quadros negros pintando a giz de unhas partidas Camus e Sartre e mitos de Sísifo das toneladas de pedra quotidianas na aleatoriedade sobreposta nos “Passos em volta” de Herberto Helder.

17/04/12

morientium

Vejo um antro de moribundos e enfermos a passear-se às costas de um eléctrico. Vejo a humanidade ambulante. Não anda pelo próprio pé e se por vezes põe o pé à estrada coxeia do outro. Há uma debilidade contagiante no ar. Há uma debilidade contagiante pois contagiosa, germinando em fria incubação nas camadas de lixo floreado e bem ornamentado pela publicidade que engolimos. Sorvemo-la de um trago, sonambulamente nos quotidianos blindados, dos dias que passam à prova de amor.

O antro de moribundos e enfermos desce do eléctrico, coxeando. Carregam às costas pesados semblantes de felicidade funcional, a felicidade fingida de quem têm a garganta seca e aquece a depressão no cobertor etílico das bebedeiras para se esquecer da sua loucura e se não matar. Pois bem, antes morto que coxeando bêbado. Ou será o oposto que se cruza connosco em cada rua de coxos? Será... antes coxeando bêbado que morto? Trará a alteração da sobriedade uma ébria distorção da crença no real que justifique tudo isso? Que justifique o pesado fardo da morte lenta ao som dos compassos da maquinaria engenhosa do enredo capitalista que vaticina o fim do tempos?

As perguntas não são retóricas. Mas não procuro resposta, não procuro salvação. Também não sou fatalista. Sei que se houver esperança ela só poderá estar (na senda de Nietzsche) na elevação sobre este “humano”. Numa humanidade de sobre-humano que inflija uma cura moral sobre o coxear massivo e massificado, mas uma cura para além do bem e do mal cujos padrões de fabricação e docilização do pensável há tanto nos encarcera. Ao mesmo tempo a mão do cárcere que aperta o cilicio do coxeio é a que intermitentemente o alivia, viciando a carne no prazer da dor.  

12/04/12

para ler (n)o epitáfio

Há passos em que não vêm Homens.
São fantasmas de passos.
Há ruas onde só se ouvem o deslizar de palavras cruas,
Erodidas pelas frias mãos dos dias baços.

Trôpegas são as pernas da solidão,
Entre o eco seco do corpo ao chão
 E o chão do corpo húmido da bebedeira.
As folhas em branco censuram o domingo inerte
Na manhã dorida de segunda-feira.

Um jardineiro deambula numa cidade de betão.
O verde é pálido na fachada de edifícios.
Seu olhar desesperado procura na alma resquícios,
Quando tudo o resto são artifícios,
que cimentam o seu coração.

Há em cada mão de desalento
Uma cara metida num bolso
Para se esconder do movimento:
Cianeto de cores envenenadas,
Violetas incandescentes de paranóias escurecidas,
Clarabóias quebradas,
Expressões sangrando de cerradas feridas.

As luzes que se apaguem.
Assim pensar-se-á que mesmo antes de submergir,
Alguém ficou para trás para ler o epitáfio.

11/04/12

Ir e vir

Trazes numa mão frases desbotadas
E no sorriso palavras em vão.
Quando te beijo para as ter caladas,
Ainda as vejo em suspensão.

Trazes na outra, olhares inquietos
E no peito sabores desejados.
Quando o tenho em pensamentos secretos
Esperam sedentos meus lábios tocados.

Trazes na boca a fé de que bebo,
Na língua o par da minha dança.
Quando me apertas, me dás e recebo,
Arde um desejo que não amansa.

Trazes nos seios o querer dos meus dedos
Contorcendo na ânsia de gritos desflorando.
De raiz sem freios apertando sem medos,
Um perfume mordido, hipnotizando.

Trazes-me para dentro de ti,
Com um fulgor que me sufoca
Quando na força bruta em que explodi,
Um orgasmo me eleva e de volta me soca.