29/07/11

as coisas da ânsia ou a ânsia das coisas

há uma sede de ânsia na qual uma esperança sorveu. 
há um querer ingénuo como sorriso-infância que ele não escondeu.

há a vontade das coisas; muitas,poucas, fortuitas, loucas.
há uma voz que por dentro implode e a outra quando explode:
é tão-só um desvanecer em vozes roucas.

há a " é a última vez!" - grito vão de repentina tempestade.
há a mão trémula, o arrependimento do que fez.
há ânsia que por segundos morreu que acorre de novo ao corpo seu:
quando o corpo esperado não respondeu é ainda maior a ânsia que o invade.

26/07/11

O igual fumo das cidades

A cidade está cheia…de idiotas!
Foi este, apenas este e nenhum outro, o seu pensamento.

A verdade estava diante dos seus olhos. A cidade era a crua e insipida verdade de uma turba negra, disforme, impaciente, incapaz de olhar o céu ou mesmo descer o olhar à rua onde caminhava. 
Idiotas salpicando lama, quando um passo mais apressado pisava forte, desapercebido o caminhante, numa poça e o  único som que daí surgia, nem mesmo esse capaz de lhes voltar o olhar ao chão.

O mundo era aquela turba. Naquela fria noite tudo em redor, sob as pálidas luzes, lhe aparecia uma cortina de fumo espessa, contínua, composta por todo um paralelo movimento. Paralelo à vida, à sua. 
Sentia-se miserável ao atravessá-la. Não porque lhe fazia parte mas porque caminhava por entre ela. 

Seria o único caminhante fumando por desagrado a cortina espessa dos idiotas?
Seria o único?…

20/07/11

a vontade das palavras

Acordo com a vontade das palavras,
É tal a exaltação como o bloqueio mental que se segue,
Pois és fantasma, vento fortuito da inspiração.

A tua imagem possui dois gumes:
Ora doce, quando as palavras parecem desenhar as tuas formas; palavras contorcendo-se em sentidos, traçando momentos vividos em sonhos do imaginário consciente.
O toque da tua boca onde florescem os beijos das primaveras que procuro em cada luz matinal.
Ora amarga, quando os poemas se encerram nos acessos de uma ânsia de inacessível libertação.
E o corpo amordaçado sob pensamentos que desesperam fabricados pela mente inquieta.

O que dá à poesia uma erecção?
    O ora doce ora amargo.
As ilusões do: “o que poderia ter sido se assim não fosse”.
A procura de te ter mais perto em tudo o que vago quando perdido indago na dúvida do incerto.

No ora doce ora amargo jaz a febril esperança, o querer desenfreado, a ingenuidade de criança, o prazer do apaixonado.
Perante tal paisagem contemplada, a beleza simples do belo, a simples beleza da simplicidade,
O poeta acredita que não é acreditar em vão que lhe espera o banquete, o uivo do lobo,
A efémera rosa, o vinho doce da lua cheia, a transcendência de um pôr-do-sol, a inocência de um sorriso infantil, a potência de um orgasmo febril.


Todos os poemas têm lobos.
O meus uivam pela noite calada sob redemoinhos interiores,
As palavras emudecidas em tremores,
Palavras guardadas, pedidas, acabadas, esquecidas,
Rimas que não escrevo e guardo em mim enlouquecidas, quando o desvario do poeta te procura nas entrelinhas do quotidiano e percebe….
Por fim…que quando escreve possuis as suas palavras e delas não mais é soberano.