Vejo um antro de moribundos e enfermos a passear-se às costas de um eléctrico. Vejo a humanidade ambulante. Não anda pelo próprio pé e se por vezes põe o pé à estrada coxeia do outro. Há uma debilidade contagiante no ar. Há uma debilidade contagiante pois contagiosa, germinando em fria incubação nas camadas de lixo floreado e bem ornamentado pela publicidade que engolimos. Sorvemo-la de um trago, sonambulamente nos quotidianos blindados, dos dias que passam à prova de amor.
O antro de moribundos e enfermos desce do eléctrico, coxeando. Carregam às costas pesados semblantes de felicidade funcional, a felicidade fingida de quem têm a garganta seca e aquece a depressão no cobertor etílico das bebedeiras para se esquecer da sua loucura e se não matar. Pois bem, antes morto que coxeando bêbado. Ou será o oposto que se cruza connosco em cada rua de coxos? Será... antes coxeando bêbado que morto? Trará a alteração da sobriedade uma ébria distorção da crença no real que justifique tudo isso? Que justifique o pesado fardo da morte lenta ao som dos compassos da maquinaria engenhosa do enredo capitalista que vaticina o fim do tempos?
As perguntas não são retóricas. Mas não procuro resposta, não procuro salvação. Também não sou fatalista. Sei que se houver esperança ela só poderá estar (na senda de Nietzsche) na elevação sobre este “humano”. Numa humanidade de sobre-humano que inflija uma cura moral sobre o coxear massivo e massificado, mas uma cura para além do bem e do mal cujos padrões de fabricação e docilização do pensável há tanto nos encarcera. Ao mesmo tempo a mão do cárcere que aperta o cilicio do coxeio é a que intermitentemente o alivia, viciando a carne no prazer da dor.
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