17/04/14

muralhas de sentidos

TRAVESSA DA AMENDOA, Évora
Camol D'Évora 

Por entre as muralhas de um homem
Se escondem Homens amuralhados
Momentos incertos na rua
De silhueta caiada, lisa, desejando ser sua
Confidente de olhares segredados.

Sinuosa se abre aos pés, conquistando
Por diante caminhando se faz vaidosa
De becos em ecos, de vozes a largos,
de praças a avessas portas
e trilhos vagos
onde se vai dando….a conhecer.
Tal sorriso de curiosa,
de amendoa a travessa, atraindo
Ora essa, por ela vão
Mais formosa a sedução
Ali desperta, ali cerrada, ali inquieta, ali celebrada.

Ai qual templo de deusa que antes de caça
Quis ser beijada
pelo humano, profano,
Desejo de carne e sóis postos ao entardecer.
Esmorecendo no desencontro,
Pondo assim um final ponto,
Até ver.

E logo a manhã desperta na insónia antes de ser manhã.
Em teus claustros, vai longa ainda a noite
Ai cidade que és açoite a perdição de corpos
Onde ecoam os gritos de paixões perdidas, outrora consentidas
Na tez branca de um sonho sofrido.
Na calçada marcada o que nunca esquecido.

Évora, cidade labiríntica contornando o prazer
Que te envolve.
Que te recobre, que te incendeia, que te revolve
E te devolve de volta ao teu centro donde partiu
A despedida anunciada.
Pudera… se possível nunca errada.
Mas entrámos por caminhos distintos
que nos trespassam como lobos famintos
e aí acorda o que talvez nunca poderá acordar.

Évora, adormece-me, entorpece-me
Deixa-me estar, assim, só assim,
Levitando na branca nuvem de horizonte
Ao comprido infinito de um Alentejo de fronte
Que não alcanço...
Porque a dor que punge, laço envolta com quem danço
É sossego de aragem, é trovoada de miragem.
Ilusão dos sentidos
Arpão de momentos esquecidos.

Mas sempre voltando, poderemos recordar,
O que não sendo verdade, tem toda a liberdade
Visão consagrada, ensejo da saudade,
Do que espera ficando, na ânsia a desejar.


21/08/12

nós


Quando as tuas palavras se ouvirem,
No momento que aos teus,
Meus olhos te seguirem:
Que homem novo renascerá?
A natureza fulgurante
Brotando apaixonante
Quando o amor se dá.

E por se dar, se deu.
Quando mesmo antes já era teu.
E por se dar, ficou.
Ao que a nós pertencendo
Mais um dia se amou.





30/07/12

a condição humana

Em dias abafados em que nos inclinamos à inclinação horizontal do culto da preguiça, reflectir sobre a condição humana é quase como trovoada que a falta de aragem fresca faz prever. 
Reflectir sobre a condição humana pode significar o esforço contemplativo da leitura de estrelas numa noite de verão. Se formos capazes de nos perdermos nessa contemplação de tal forma que todo o globo ocular se funda com as linhas entre-cruzadas de constelações imaginadas (pois não somos na nossa maioria especialistas na arte e ciência astronómica), ao retornamos à focalização terrena dos objectos circundantes e próximos, sentiremos que a vida humana vale pela vida humana. Tal afirmação poderá, a uma primeira leitura, parecer óbvia. Não o é. Digo-o porque a complexidade disfuncional que caracteriza a evolução das sociedades é precisamente a contradição da tal afirmação "óbvia" de que a vida humana vale pela vida humana.

Sobre a condição humana dos dias actuais, nas palavras e reflexões eruditas dos líderes mundiais, a ordem e paz aparecem quase sem excepção como desígnio último a atingir. O problema é que o caminho seguido, o caminho traçado (e ainda pior) o caminho ambicionado se concentra na ideia de que importa a ordem e a paz fazendo a guerra para manter as primeiras dentro de certos limites territoriais através do medo instaurado pela segunda. 

Já o fiz, mas lembro mais uma vez Tocqueville quando a respeito destes assuntos escreveu que é em nome da paz e da ordem que todos os povos têm sido levados à tirania. 
As palavras paz e ordem, (ou melhor dizendo, a palavra paz simplesmente, pois sem essa a ordem será sempre ilusória) só fazem sentido como tidas e sentidas na condição humana enquanto não existirem algumas centenas, milhares, milhões (sempre coisa pouca) de Homens integrantes dessa condição que vivam como fantasmas esqueléticos, esquecidos em campos de "ajuda Humanitária" (que conveniente eufemismo).  
Só quando a dignidade de viver for reposta e não houver um exército de despojados de identidade pela identidade vazia de estar condenando a ser moribundo sem nunca ter podido ler as estrelas, é que a reflexão sobre a condição humana poderá ser feita "descansados da vida" imaginando constelações. Até lá é impossível ficar indiferente.


18/05/12

As paredes têm ouvidos



Oiço mais do que quero,
Menos do que desejo,
Nunca o que decido ouvir.
Quando não oiço desespero,
Por não saber se quero
Ou se espero decidir.

O branco da parede do meu quarto
É igual ao branco da parede do meu quarto.
E ainda assim diferente,
Quando na noite febril,
O sonâmbulo sente as tonalidades
De loucura branca em branco louco
E suores frios.
Deambulando à roda de si vê com espanto,
Que o quarto é pouco para tamanhos cios.

Quando a insónia amansa
E sossega o seu latejar;
Vejo o branco esmorecido
Em trémula dança,
No bater entorpecido da jugular.
                                                                              
E aí adormeço.
Não há mais branco.
Aí eu esqueço.
Aí o quarto deixa de me ouvir.
É quando sei, 
Entrevendo na existência sonhada,
Que decido pensar o que sinto
E ouvir o que o penso.
Mas quando acordo não lembro nada.

26/04/12

Quando a memória sente






Vêm-me os teus contornos à memória.

Vêm-me no acolhedor cheiro de grãos de café queimados. Queimando na ponta da língua das minhas insónias quando teus contornos me desassossegam a palpitação jugular e me ardem as têmporas. Remonto a essas noites em que como café sorvido te despertava no aconchego de conchas e búzios, ondulando em murmúrios de algas verdes e profundezas da alma.

O barco faz a travessia rotineira, o céu cinzento espelha-se nas águas agitadas no encontro de uma corrente com a chuva em sol encoberto e ausente. Duas árvores convidam a minha janela para uma dança de angustiada raiva e morder de lábios enxaguados.
Enquanto no quarto fervilhante assolam de novo as dores de cabeça de um free-jazz em páginas amontoadas, gritos de negação, chamamentos de silêncio-solidão e absurdos lamentos. Existências ressalvadas e encarnadas de crus desenhos em quadros negros pintando a giz de unhas partidas Camus e Sartre e mitos de Sísifo das toneladas de pedra quotidianas na aleatoriedade sobreposta nos “Passos em volta” de Herberto Helder.

17/04/12

morientium

Vejo um antro de moribundos e enfermos a passear-se às costas de um eléctrico. Vejo a humanidade ambulante. Não anda pelo próprio pé e se por vezes põe o pé à estrada coxeia do outro. Há uma debilidade contagiante no ar. Há uma debilidade contagiante pois contagiosa, germinando em fria incubação nas camadas de lixo floreado e bem ornamentado pela publicidade que engolimos. Sorvemo-la de um trago, sonambulamente nos quotidianos blindados, dos dias que passam à prova de amor.

O antro de moribundos e enfermos desce do eléctrico, coxeando. Carregam às costas pesados semblantes de felicidade funcional, a felicidade fingida de quem têm a garganta seca e aquece a depressão no cobertor etílico das bebedeiras para se esquecer da sua loucura e se não matar. Pois bem, antes morto que coxeando bêbado. Ou será o oposto que se cruza connosco em cada rua de coxos? Será... antes coxeando bêbado que morto? Trará a alteração da sobriedade uma ébria distorção da crença no real que justifique tudo isso? Que justifique o pesado fardo da morte lenta ao som dos compassos da maquinaria engenhosa do enredo capitalista que vaticina o fim do tempos?

As perguntas não são retóricas. Mas não procuro resposta, não procuro salvação. Também não sou fatalista. Sei que se houver esperança ela só poderá estar (na senda de Nietzsche) na elevação sobre este “humano”. Numa humanidade de sobre-humano que inflija uma cura moral sobre o coxear massivo e massificado, mas uma cura para além do bem e do mal cujos padrões de fabricação e docilização do pensável há tanto nos encarcera. Ao mesmo tempo a mão do cárcere que aperta o cilicio do coxeio é a que intermitentemente o alivia, viciando a carne no prazer da dor.  

12/04/12

para ler (n)o epitáfio

Há passos em que não vêm Homens.
São fantasmas de passos.
Há ruas onde só se ouvem o deslizar de palavras cruas,
Erodidas pelas frias mãos dos dias baços.

Trôpegas são as pernas da solidão,
Entre o eco seco do corpo ao chão
 E o chão do corpo húmido da bebedeira.
As folhas em branco censuram o domingo inerte
Na manhã dorida de segunda-feira.

Um jardineiro deambula numa cidade de betão.
O verde é pálido na fachada de edifícios.
Seu olhar desesperado procura na alma resquícios,
Quando tudo o resto são artifícios,
que cimentam o seu coração.

Há em cada mão de desalento
Uma cara metida num bolso
Para se esconder do movimento:
Cianeto de cores envenenadas,
Violetas incandescentes de paranóias escurecidas,
Clarabóias quebradas,
Expressões sangrando de cerradas feridas.

As luzes que se apaguem.
Assim pensar-se-á que mesmo antes de submergir,
Alguém ficou para trás para ler o epitáfio.