24/11/10

Rua das cantigas

A luz trémula
Indaga a sua má sorte
A solidão que a acompanha
Na taciturna noite
Invoca presságio de morte

Olho-a, depois ergo
Esse mesmo olhar
Sem pestanejar
A rua permanece
Prestes a gritar
Mas permanece
Aguardo a sua prece
Mas nada
Tudo sólido
Nenhum ranger de dentes, de raiva
Urge das pedras da calçada
Nenhum uivo de dor
Como quem perdeu sua amada
Só, apenas, unicamente
Nada…

Meu casaco cai
Aí vem a primeira rajada de frio
Que afia na sua pedra de amolar, o vento
As suas mil e uma facas
E mais umas quantas, agulhas
Que me dilaceram lentamente
Como brasas que lançam fagulhas

Testo-o!

As camisolas caem
De tronco nu agora
Desses complementos despojado
Mais uma facada
Enquanto foco as pedras, e nada
Perenes na sua instância de demora
Aguardam, talvez, que este despojado louco
(Eu)
Se vá embora

Meu pé não se arreda
Permaneço, instigando mais as pedras
Embrenho-me mais no seu desafio
Suores de loucura
A seta que perfura
Este dilacerante frio…

A febre assintomática da espera
Me toma
Quem não desespera é o frio
Que inicia nova demanda
A neblina adensa-se
Salta para nevoeiro
Como gato que salta para outra varanda.

Desaperto o cinto
Num gesto brusco
Mas não desperto as pedras
Exaltam numa silenciosa gritaria
 Suas infames! – conjugo verbo  gritar.
Não vim aqui só para vos olhar
Para tal não viria
Vim aqui p’ra caminhar
Desde esta noite
P’ra todo o dia.

Nuvens adensem-se
Cerrem-se
Mas não tanto como minh’alma
Sob a crença de mim próprio
Nu sobre ela me deito
Tomo o dito por feito.
Nu, assim amanhã acordarei
Em mim a fecharei
Como as nuvem que se adensaram
E cerraram
Como elas viverei.


 O que ela é?
De que falas nesses intermitentes versos?
- Perguntam as pedras
Ah! Finalmente falaram
Até pedras, as mais insondáveis
Venci, venço e vencerá
Qualquer louco suado
Nu, despojado
Que assim nu se entregar
E lançar ao desafio
Pela e só pela nudez trajado
Quais facas e agulhas
Mil e uma e mais umas quantas
Não, não te demoverá o frio.

Falo da rua, das cantigas de rua
Que oiço quando nela venço e caminho
Como sequioso humano
Sorve o paladar do seu vinho.

Deito-me sobre a rua, no meio,
Mesmo sobre o seu seio
Esperando uma outra voz
Que não veio
Mas virá
Sei que virá
Sei porque mim mesmo se deita sobre esta gélida calçada
No meu deleito de ser humano
Sei porque o verdadeiramente sou
E nisso nada há de profano.

Escuto o que a sábia pedra tem para dizer
Com sua voz rouca ensinar
Mais nada espero, que mais poderia acontecer?
Quem por tantos pés foi remexida e mesmo assim
Intocável se mostra á vida
Ela saberá, sei que saberá
Dizer-me que caminho devo tomar
Apenas disse calmamente, sem pestanejar:
“Segue o presente, vive-o como eu, remexida mas intocável
Como virgem floresta
 E a todos os tempos deverás chegar.”

Um fogo irrompe
Um paladar desponta
A trémula luz incandesce
Agora rejuvenescida
Largou para sempre
Aquela descrença tremida.

Como ela, sendo ela, eu acordo
Começo a cantarolar
E assobiar
Caem as gotas do orvalho
Nas folhas, nos ramos, nas raízes
Até no chão,
Nesta rua da razão
Quando o pássaro levanta voo do seu galho.


Cantigas da rua que palmilho
Que importa se meus pés
Ásperos se tornam
Á fricção da calçada
Porque eu roço nela, descalço
Não num bojo de terra
Que se diz seguro e é falso.

As feridas que se abrem
Com meu sangue marcarão
A sapiência destas pedras
Descalço em vós, eu caminho
Eis a minha gratidão.

Ah cantigas da rua, desta rua, do mundo
Que todo ele é-o esta rua
Desenlaça nobre humano
Os cordões que suprimem
Os pés que anseiam caminhar
Na liberdade que convosco nasceu
E vive sonhando com o que sempre será teu.

Vem, caminha a meu lado
De todos esses complementes despojado
E desnudado vem
Eu, tu e ela
A verdade da minha verdade
Da nossa, de todos

Cabeça, tronco, membros
Sintam ó poros a frescura
Respirem ofegantes
Que isto amanhã
Não será “antes”
Mas um eterno depois
Ó verdadeiros caminhantes.



Sintam, abram-se, gritem
Gritem, abram-se, sintam
Sintam e escrevam-no com vosso sangue.

Que vos digo eu no fim deste começo?

Nem tudo o que nas pedras se escreve
A água da frescura apaga
O fogo que os corações recebem
Com a dor se sente
Com a dor se paga.










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